Formação e invenção do professor no século
21
Cristóvam
Buarque
A escola começou com apenas
alguns alunos ao redor de um professor. Sem quadro-negro,
sem livros: um professor e um pequeno grupo de alunos. Ao
longo de séculos, essa estrutura evoluiu, sem jamais
deixar de estar centrada no professor.
No século 21, o professor continuará sendo o centro do
processo pedagógico, mas de uma forma diferente. Longe
daquele tutor rodeado de cinco ou seis alunos, o professor
será o maestro, o arquiteto e o engenheiro de um
espetáculo composto por alunos em número variado de até
milhões. Alunos espalhados pelo mundo inteiro, em
endereços geográficos desconhecidos e que podem também
desconhecer onde está o professor, que usará os modernos
equipamentos de teleinformática para melhora interagir com
eles.
Essa mutação demorou, mas em nenhum momento ocorreu com
tanta rapidez e força quanto nos últimos anos. Passaram-se
mais de 2000 anos, desde o início da escola, para que
fosse inventado o quadro-negro. Esta foi a primeira grande
invenção revolucionária do processo educacional, ao lado
da imprensa e da biblioteca. Graças a ela, foi possível
ampliar o número de alunos para algumas dezenas. Depois, o
microfone ampliou para até centenas.
Foram, porém, o rádio e a televisão que permitiram ampliar
a assistência; a informática permitiu a aula interativa
para milhões de alunos. Além disso, foram as modernas
técnicas de programação visual que transformaram o
quadro-negro em um monitor em que as imagens se movem,
adquirem três dimensões, penetram nos objetos estudados,
jogam com o imaginário de cada aluno.
Essa revolução no equipamento pedagógico ocorrida nos
últimos 20 anos está inventando um novo profissional, que
ainda vai continuar se chamando professor, mas já não se
encaixa no tipo anterior. Mesmo assim, ele continuará
sendo o centro do processo pedagógico.
Por isso, o mais importante desafio da educação
contemporânea é formar o professor. Mais até: inventar um
novo tipo de professor.
Pelo lado dos equipamentos já disponíveis, o professor
terá de se reformar, se reinventar. Para ser um bom
professor, ele precisará ser capaz de oferecer o máximo de
recursos a seus alunos. Da mesma maneira que não se
imaginava, no século 20, um professor sem quadro-negro, no
século 21 não se pode conceber um professor que não
disponha nem se beneficie dos recursos modernos que
facilitam o aprendizado, como televisão, computador,
vídeo, programação visual, informática. O professor dos
próximos anos terá de se adaptar à evolução que está
ocorrendo nos equipamentos pedagógicos.
Além disso, ele precisa se adaptar à nova dinâmica com a
qual o conhecimento avança, em uma velocidade nunca
ocorrida no passado. O conteúdo que ele conhece e
transmite exigirá uma nova formação, porque o conhecimento
hoje evolui de maneira muito mais rápida do que há até
pouco tempo. O professor era a pessoa que conhecia
determinado assunto e possuía uma habilidade inata ou
adquirida para usar sua fala, seu quadro-negro, sua
memória, talvez um pouco de seu carisma, para transmitir
seu conhecimento aos alunos. Até recentemente, ao longo de
sua vida profissional, evoluíam muito pouco o quadro-negro
e o conteúdo do seu conhecimento.
Dois movimentos do mundo atual forçam o professor a uma
adaptação, uma transformação, uma reinvenção: por um lado,
os novos equipamentos; por outro, uma dinâmica de evolução
no conteúdo. Faz pouco tempo, o saber de um professor
tinha valor atualizado até sua aposentadoria. O
conhecimento durava e os equipamentos eram os mesmos.
Hoje, esse conhecimento fica obsoleto muito rapidamente, e
a teleinformática oferece novos produtos a cada dia. Ao
longo de sua vida profissional o professor tem de passar
por diversas rupturas no conhecimento dos equipamentos.
Antes, o conhecimento e os equipamentos eram estoques
adquiridos, agora são fluxos a serem dominados
constantemente, por meio de uma formação pedagógica
permanente.
Além da dinâmica no conhecimento e da modernidade dos
equipamentos, três outras realidades obrigam o professor a
se reformar: a mente dos alunos, iniciados e viciados nos
monitores da televisão e dos computadores, a ausência das
famílias e a presença da mídia.
O aluno contemporâneo não é mais uma tábua rasa a ser
escrita pelo professor. Desde a mais tenra idade, ele
aprende a cada dia, por meio das informações que recebe
constantemente, e quando vai à escola tem dados
adicionais, além dos que recebeu na véspera em sala de
aula. O magistério ocorre dentro da escola, com professor,
e fora dela, com a mídia. E esses dois setores nem sempre,
ou raramente, colaboram um com o outro. Na maior parte dos
casos, eles se opõem, se negam, a mídia disseminando ou
dizimando o que o professor ensina.
Essa dificuldade não seria tão grave se o mundo moderno
mantivesse a tradição da família, especialmente a mãe, os
avós e tios, os irmãos mais velhos e até os vizinhos
participando da grande aventura do ensino. Mas a cada dia
diminui essa integração. As mães trabalham fora, os irmãos
estão isolados nas ruas, nos videogames, às vezes no
crime, os vizinhos são desconhecidos e muitas vezes
desconfiados. (E o pai?)
A formação do professor enfrenta, portanto, cinco
desafios:
os novos equipamentos,
a dinâmica do conhecimento,
a presença da mídia,
a ausência da família,
o conhecimento precoce e a
priori dos alunos.
Por isso, nunca foi tão
fundamental a formação do professor.
Primeiro, mais do que formado, ele tem de ser reformado,
reinventado, para servir ao processo de aprendizagem do
futuro. Os professores terão de mudar muito mais do que
mudaram no tempo em que o uso do quadro-negro começou a se
generalizar. Diz-se que foi um escocês, James Pillans
(1778-1864), quem inventou o quadro-negro e o giz
colorido, para ensinar geografia. Não se pode imaginar o
aprendizado da geografia sem os desenhos nos quadros. O
mesmo acontecerá no futuro: não se poderá imaginar o
aprendizado de idiomas, física, biologia ou qualquer outra
disciplina sem os recursos que a teleinformática oferece.
Para se reformar e se adaptar ao uso dos sistemas de
computação, o professor vai deixar de ser um artesão da
transmissão do saber, baseado apenas na própria
capacidade, e terá de trabalhar em grupo, com
programadores visuais, analistas de sistema, profissionais
de informática e outras especialidades que surgirão nos
próximos anos e décadas.
Não será impossível que, para diferenciar o professor do
século 21 de todos os anteriores, surja até mesmo um novo
nome para identificá-lo.
Segundo, o professor terá de ser capaz de reaprender
permanentemente, não apenas as técnicas de programação
visual e de informática, mas também o conteúdo de suas
matérias. Porque o pensamento evolui muito rapidamente e
se espalha mais rapidamente ainda. O professor do futuro
estudará sua matéria, aprendendo-a permanentemente,
simultaneamente ligado com a criação do saber, ou não mais
saberá sua disciplina, ficará obsoleto. De outra, se ele
demorar a aprender, seus alunos aprenderão antes dele,
seja pela televisão ou pela navegação na internet.
O professor estará sempre em formação, ou não será
professor.
Terceiro, ele terá de saber utilizar a mídia aberta, não
apenas para contrabalançar os prejuízos que ela provoca no
aprendizado, como também para tirar proveito dos programas
educacionais que ela tem. A programação da televisão
aberta e a cabo terá de ser levada em conta como parte da
escola e para isso o professor deverá estar preparado.
Essa reformulação do professor, mais do que sua formação,
exigirá uma modificação na escola e em seus
administradores.
O salário do professor terá de aumentar consideravelmente,
ou a escola não será capaz de manter esse novo
profissional. Para ter um bom professor, vai ser preciso
atrair profissionais que não apenas conhecerão suas
disciplinas, mas também saberão manusear com facilidade
todas as técnicas de programação visual e conhecerão o
idioma de outros profissionais da área da informática, o
que vai exigir salários crescentes.
O professor terá de ser cobrado não apenas por sua
formação e pelo aprendizado permanente, continuado, on
line, de sua área, mas também por sua dedicação ao
magistério. O salário não poderá ser aumentado apenas com
base nos diplomas que adquira, porque os diplomas terão
prazo de validade, mas também nos resultados obtidos, na
avaliação do aprendizado de seus alunos.
Além dos salários elevados, os professores só poderão
exercer suas funções se cada escola dispuser de
equipamentos modernos. Da mesma forma que desde o século
19 não se pode imaginar uma escola sem quadro-negro, não
se pode, no século 21, imaginar uma escola sem um
sofisticado conjunto de equipamentos de teleinformática à
disposição do professor.
Para que isso seja possível, os órgãos de administração da
educação precisam necessariamente manter um sistema
permanente de formação para os professores, para atualizar
tanto o conteúdo de suas disciplinas quanto as novas
técnicas pedagógicas. A formação deve ser permanente,
continuada, diária; é preciso criar sistemas de sabáticas
para que os professores disponham de tempo integral, por
algumas semanas ou meses, a cada ano, para sua dupla
atualização: na disciplina que ensina e nas técnicas de
ensino.
No caso específico do Brasil, isso vai exigir mudanças
substanciais na administração da escola pública.
Primeiro, será necessário criar um Ministério da Educação
Básica. Enquanto o MEC cuidar simultaneamente do Ensino
Básico e do Ensino Superior, essa última área dominará
totalmente o uso de recursos e as preocupações dos
dirigentes nacionais. Em tais condições, o governo federal
continuará cuidando do Ensino Superior e relegando o
Ensino Básico aos municípios e estados. O resultado será
uma educação pobre e desigual. Pobre porque os estados e
municípios têm poucos recursos. E desigual porque no
Brasil a diferença de renda entre os municípios chega a
ser de quase 40 vezes. Além do Ministério da Educação
Básica, será preciso criar junto à Presidência da
República uma Agência Nacional de Proteção da Criança, que
coordene as ações de todos os ministérios e monitore,
apóie e invista no desenvolvimento das crianças, desde seu
nascimento até o final do Ensino Médio.
A formação do professor brasileiro será uma tarefa
nacional, ou não ocorrerá. É preciso nacionalizar a
formação do professor, suas regras, seus instrumentos e,
obviamente, suas compensações. Será preciso um salário
federal, cursos e concursos federais e monitoramento e
avaliação federais. Não é possível que a educação de uma
criança brasileira seja feita por um professor selecionado
por critérios municipais e estaduais e remunerado pelo
município ou estado. É preciso que haja um padrão mínimo,
tanto para a formação quando para o salário e a avaliação
do trabalho do professor.
Segundo, da mesma forma, será preciso que haja um padrão
mínimo de edificações e de equipamentos para cada uma das
180 mil escolas do Brasil. O Brasil não pode ter uma boa
educação, e professores bem formados se entre 20 mil e 30
mil dessas escolas não contam sequer com banheiro ou
energia elétrica. Tampouco se essas escolas não têm acesso
a computador, televisão, programas de informática, CD/DVD,
TV educativa, antena parabólica, internet. Esse padrão
mínimo de edificação e equipamento tem de ser financiado e
fiscalizado pela União. Nenhum estado, nem mesmo entre os
ricos, dispõe de recursos suficientes e a desigualdade
entre eles sacrificaria mortalmente a educação das
crianças das regiões mais pobres.
Terceiro, além dos padrões mínimos de salários e formação
e dedicação, e de edificações e equipamentos, é preciso
que os quase 2 milhões de professores do Brasil sejam
formados para transmitir conteúdos que sigam padrões
mínimos em todas as classes de todas as escolas do Brasil,
seja qual for a cidade onde o aluno tenha nascido ou
estude, seja qual for a classe social da sua família. De
nada adiantará formar professores se eles não forem bem
remunerados, mas de nada adiantará formar e remunerar bem
se eles não contarem com os equipamentos necessários. E
também de nada servirá se os alunos continuarem a chegar à
4ª série sem saber ler e escrever; sem saber matemática;
sem que haja um padrão mínimo de conteúdo para cada classe
em cada escola, em todas as cidades dos Brasil.
Quarto, a cada ano o governo federal deverá, por meio do
Congresso Nacional, aprovar uma lei com as metas
educacionais para aquele ano. E será preciso que as
autoridades cumpram essas metas. Assim como o Brasil tem
uma Lei de Responsabilidade Fiscal, é preciso haver uma
Lei de Responsabilidade Educacional. Por meio delas se
definirão as metas a serem atendidas pelos prefeitos,
governadores e pelo ministro da Educação Básica. Com essas
metas, será possível inclusive reduzir gastos, porque em
vez de se exigir dos prefeitos que gastem muito, se
exigirá que façam muito. Apesar do avanço que significou a
vinculação de gastos para a educação, essa lei provocou um
desvio de sua intenção quando foi outorgada, porque o bom
prefeito passou a ser o que gasta muito com educação,
independentemente dos resultados obtidos. O bom prefeito
deve ser aquele que faz muito - o que deve ser medido pelo
aprendizado de seus alunos -, mesmo gastando menos.
Quinto, nada disso poderá ser feito sem que o governo
federal invista mais em Educação Básica. Hoje, dos 60
bilhões de reais gastos com Educação Básica no Brasil, o
governo federal entra com apenas 6 bilhões de reais. O
Fundeb pouco vai mudar, ao elevar ligeiramente esse valor.
O governo federal precisa gastar, desde já, no mínimo 7
bilhões de reais a mais, por ano, com educação. Esses 7
bilhões de reais correspondem a apenas 1% da receita da
União. Um valor perfeitamente viável.
Sexto, esses recursos de pouco adiantarão se não vierem
acompanhados de mudanças na criação de um Sistema Único de
Educação, ou da Nacionalização da Educação Brasileira, e
se elas não vierem acompanhadas de pelo menos sete
instrumentos essenciais:
a) criação de um Ministério
da Educação Básica e de uma Agência Nacional de Proteção
da Criança,
b) consolidação da
Universidade Aberta do Brasil, com cursos dirigidos à
formação permanente dos professores;
c) assinatura de convênios
com o repasse de reservas do Ministério da Educação Básica
para o Ministério do Ensino Superior, para que as
universidades promovam cursos de licenciatura e de
formação continuada de professores;
d) garantia de vagas
automáticas nas universidades para professores concursados
ou aprovados em cursos de licenciatura ou especialidade
nas áreas pedagógicas;
e) pagamento de bolsas
integrais aos alunos de licenciatura e pedagogia que
estudem em universidades e em faculdades privadas com
qualidade comprovada;
f) criação de uma rede de
institutos superiores federais, estaduais e municipais de
educação, para a formação de professores, independente da
estrutura universitária tradicional;
g) recriação do sistema de
inspetoria federal de Educação Básica.